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Gil Carvalho, da Viva o Centro: “Temos que dar um choque para pôr São Paulo no mapa do turismo”

31/03/2025

Gil Carvalho, da Viva o Centro: "Temos que dar um choque para pôr São Paulo no mapa do turismo"

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Entre as propostas de Gil Carvalho está fazer do entorno do Teatro Municipal a Broadway paulistana
(Eduardo Anizelli/Folhapress)

  • Arquiteto e urbanista sugere isenção de aluguel por um ano para atrair moradores. "Mas tem que arrumar a base"
  • "Eu implementaria uma Times Square na região que vai da praça da Patriarca até a praça da República"
[AGÊNCIA DC NEWS]. Gilmar Gomes Carvalho tem uma "relação de angústia" com o Centro de São Paulo, onde começou a trabalhar aos 14 anos (está com 69), na praça do Patriarca e, pouco depois, na rua da Quitanda. Os estudos também foram na região: o Liceu de Artes e Ofício e a universidade Mackenzie, onde se formou em arquitetura e urbanismo. Por que angústia? Por ver um potencial desperdiçado. Como diretor da Federação Internacional Imobiliária (Fiabci) no Brasil, ele costuma viajar bastante. E conhecer outros centros. "A gente fica com inveja. Em todas as cidades do mundo, os lugares mais valorizados e concorridos estão no Centro. A gente vai gastar no Centro dos outros, lá fora, e não consegue curtir aqui", afirmou Gil Carvalho, como é conhecido. "Com essa política que colocaram lá atrás, erroneamente, de simplesmente trazer as pessoas para morar sem a compreensão de que o Centro deve ser valorizado, a coisa só deteriorou."

Recentemente, Gil Carvalho se tornou diretor de Planejamento Estratégico e de Projetos da associação Viva o Centro. E faz planos. Para ele, a cidade precisa de um choque de gestão. "A ideia é inserir o Centro de São Paulo no mapa do turismo mundial", disse. Ele pretende apresentar em breve um projeto "para que a gente consiga recuperar, reurbanizar e requalificar a região, e ter toda essa vida de todo grande Centro como a gente conhece". Isso inclui isentar futuros moradores de aluguel por até um ano e instalar uma Broadway na metrópole. 

AGÊNCIA DC NEWS - Nos últimos anos, tivemos certo retorno de empresas para o Centro. Há uma reversão daquela tendência de esvaziamento?
GIL CARVALHO - É muito lento. Realmente, há algumas empresas que vieram, mas, infelizmente, são coisas pontuais. Nós temos que dar um choque, uma ação de certa forma acelere esse processo.

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AGÊNCIA DC NEWS - O que poderia ser feito?
GIL CARVALHO -Uma das alternativas é criar isenção de aluguel para quem vier para o Centro. Um ano sem aluguel. Só paga IPTU. Aí o cara deixa de botar a mão no bolso e a prefeitura não deixa de receber. Paga IPTU, água, luz. Primeiro ano zero, segundo ano, meio aluguel, depois regulariza. É fundamental que a gente consiga trazer habitação para o Centro. Criar realmente um movimento, para que a coisa aconteça e a gente consiga ter circulação grande de pessoas. Porque o comércio vive dessa circulação. Nós temos aqui 2 milhões de metros quadrados parados.

AGÊNCIA DC NEWS - De que área estamos falando?
GIL CARVALHO - Corresponde a 33 mil habitações de 60 metros quadrados. Agora saiu essa lei do retrofit. Estamos trabalhando nisso, é um campo muito fértil para o mercado imobiliário. Mas não basta só isso.

AGÊNCIA DC NEWS - O que mais é necessário?
GIL CARVALHO - Não adianta só arrumar a moradia, tem que arrumar a base. Eu traria também as indústrias criativas, para fomentar o trabalho. Foram as indústrias criativas que salvaram Londres, que também estava com esse tipo de problema. Traria, por exemplo, as universidades. E, principalmente, para que o Centro tivesse mais aderência, criar aqui um grande polo tecnológico, com as grandes multinacionais, para aí sim ter uma requalificação de tudo isso, não só do trabalho, mas das pessoas, dos costumes, para dar uma vida efetiva ao Centro, com qualidade, segurança e produtividade.

AGÊNCIA DC NEWS - Programas de estímulo da administração municipal (Requalifica, Triângulo Histórico) não bastam?
GIL CARVALHO - São importantes porque estão falando com o comércio. Mas eu digo o seguinte: é o conjunto. Para a gente pode trazer vida, para que as pessoas tenham prazer, tenham necessidade, ou até seja objeto de desejo morar no Centro. Precisamos ver tudo isso funcionando junto. A gente vê neste momento uma vontade política também acontecendo, por parte do governador, que está trazendo a máquina pública para Campos Elíseos.

AGÊNCIA DC NEWS - O Centro Administrativo pode ter efeito multiplicador?
GIL CARVALHO - É a hora de a gente fomentar esse retrofit todo, para que acolha e dê condições de moradia. Vamos evitar esse problema de mobilidade. A cidade vai crescendo na franja, vai esparramando mais, a pessoa leva três horas para ir, para voltar. Se mora no Centro, tem uma economia muito grande, dos equipamentos e dele também. Por isso é importante a verticalização. Porque é [no Centro] que está a infraestrutura.

AGÊNCIA DC NEWS - Onde isso acontece?
GIL CARVALHO - O modelo mais acabado é Hong Kong, com espaço menor tem aquela quantidade [maior] de moradias. Está tudo concentrado no Centro. Isso acabaria trazendo uma forma de suprir essa demanda de moradias em São Paulo. Se o mercado imobiliário não consegue atender a essa demanda, acumula para o ano seguinte e continua a aumentar.

AGÊNCIA DC NEWS - O que mais pode ser feito pelo poder público?
GIL CARVALHO - Uma situação interessante que o próprio governador colocou seria trazer a Polícia Militar para morar no Centro. Porque aí nós teríamos duas situações: uma de beneficiar o policial militar, que não pode sair fardado por questões de segurança. Aqui ele moraria dignamente e estaria com o olhar vigilante pelo local onde ele mora. É uma proposta muito interessante.

AGÊNCIA DC NEWS - E a proposta apresentada pela prefeitura de ter um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) na região central?
GIL CARVALHO - É importante você ter intervenções de mobilidade. Porque as pessoas deixam de vir, ou vêm muito pouco. Se você pegar uma cidade como Paris, você tem lá 40 milhões de turistas por ano [47,5 milhões em 2023, sendo 45% estrangeiros]. Você vai para Gramado, tem quase 9 milhões [foram 8,2 milhões em 2023 e aproximadamente 6,5 milhões no ano passado, por causa dos efeitos das enchentes no Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria Municipal de Turismo]. Aqui em São Paulo, é mínimo [todo o estado recebeu 2,3 milhões de turistas estrangeiros em 2024, segundo o Ministério do Turismo].

Gil Carvalho
Gil Carvalho: "A gente vai gastar no Centro dos outros, lá fora, e não curte aqui"
(Arquivo pessoal)

 

AGÊNCIA DC NEWS - Você falou em tornar São Paulo uma Brodway.
GIL CARVALHO - É um projeto que eu quero apresentar. A primeira coisa é criar uma identidade para São Paulo.

AGÊNCIA DC NEWS - E onde você a imagina?
GIL CARVALHO - O Viaduto do Chá, que é uma imagem forte, é uma passarela, na verdade. Liga o Centro antigo ao novo. Você vai da praça da Patriarca até a praça da República. Plano, completamente plano. Eu implementaria nessa região uma Times Square [região de Nova York conhecida pelas opções culturais e de entretenimento], para gerar essa imagem forte. Para qualquer turista que tire uma foto, e você saiba que é São Paulo.

AGÊNCIA DC NEWS - Ocupando essa região…
GIL CARVALHO - É o quadrilátero que existe entre a praça Ramos, com a Ipiranga, a São João e a São Luís. Esse quadrilátero precisa ser totalmente requalificado. É uma região muito rica. Essa região tem vários cinemas fechados. Você vai descendo por trás do Teatro Municipal, na [rua] Conselheiro Crispiano, tem o cine Marrocos, cine Paissandu, Art Palácio, Olido… fechados, depois mais casas de shows na sequência, fechadas. Você vai na São Luís, a Galeria Metrópole, coisa mais linda, um cinema de 700 lugares, fechado. Então, a ideia é que tenhamos essa Times Square, com esse impacto visual e ao mesmo tempo um conjunto para o turista poder utilizar. Broadway no sentido maior da palavra.

AGÊNCIA DC NEWS - O que significa esse 'sentido maior'?
GIL CARVALHO - Não é só cinema, teatro. Pode ser teatro, pode ser um aquário, um planetário, casa de shows, coisas que deem vida. Aí vêm bares, restaurantes, tudo junto. E não precisa construir nada. Está tudo pronto. Precisa dar uma cara nova, uma programação nova. A ideia é criar um shopping a céu aberto, um mall, mas com cara mais humana, um paisagismo bacana, que tenha mais vida, mais acolhimento.

AGÊNCIA DC NEWS - Uma certa ressignificação de espaços…
GIL CARVALHO - Até brinquei dizendo que gostaria de transformar a rua São Bento na Oscar Freire do Centro Histórico, para que as pessoas possam passear, se divertir e morar. É exatamente o que acontece com qualquer capital no mundo.

AGÊNCIA DC NEWS - Você já falou em cidades inteligentes e medíocres. São Paulo está conseguindo migrar para esse pensamento?
GIL CARVALHO - Eu falo nessa questão da mediocridade em relação aos indicadores construtivos. Nós temos quatro, seis vezes de potencial construtivo do Centro. Em Nova York, são 16, 20 vezes a área do terreno. É preciso realmente fomentar essa verticalização. Nós temos essa amarra. Tivemos um Plano Diretor novo, que poderia buscar alguma coisa um pouco melhor, mas continua mais ou menos o que já existia.

AGÊNCIA DC NEWS - O que seria um obstáculo?
GIL CARVALHO - Do ponto de vista social é que mais me preocupa. Não tem por que investir e fazer tudo isso se a gente não se preocupar com o ser humano, com essas pessoas que vivem jogadas na cidade, infelizmente até fomentadas por ONGs. Precisamos cuidar primeiro dessas pessoas.

AGÊNCIA DC NEWS - De que maneira?
GIL CARVALHO - Existe dinheiro, as empresas podem fazer esse trabalho, nós temos um projeto em que isso poderia ser implementado em bem pouco tempo. Precisa vontade política, tempo e interesse maior para resolver.

 

Creditos
Por Vitor Nuzzi30 de Março, 2025 - 9:45Atualizado em 31 de Março, 2025 - 9:32

Fonte:

https://agenciadcnews.com.br/

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